O paraíso não pode descer aqui, não posso negar o sim, ácido de feições dóceis seduz as suaves linhas do teu rosto. Mudem o rumo deste vento e talvez o chão possa viajar em nós, universalizar-se em nossos pensamentos.
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Deve existir uma estrada que percorra a tua noite. Sinalizada por luzes na escuridão, para lá do voo do albatroz, encontra como fim o palácio da magia. Silêncio esbatido na chegada iminente deixa o suave motor de plumas estagnado. Devo anunciar a minha presença, como sabes já parti a alguns anos, mas só hoje posso estar junto de ti...
Noite, suave sangue de azul escuro que me cobre os sentidos
Em ti vejo os mais latos deuses e os pais da tragédia humana
Noite de calmos encantos avança nos meus olhos de bruma
Cobre a minha insónia e com os teus lábios devora-me o beijo
Noite assassina da minha sanidade, jasmim de cheiro perfumado, gema de rubi
Embala-me na tua alquimia e agregar-me a ti, aqui me tens no teu colo de fêmea
Noite cúmplice e companheira, morre a tua face em detalhes de esmeralda e lua
Clama no silêncio ao teu filho de glória liberta-me os poderes do meu orgulho frio
Noite mãe da candidez e pecado, hora final do nosso mistério arrebatado ao céu
Meia deusa, meia minha, voz quente e fatal, ninfa que embala a lassidão do sol
Noite ouve a minha prece, leva-me no teu canto de rapina á tua doce consciência
Celebra o meu corpo na tua alma e abraça-me no teu conhecimento alvo e místico
Noite, suave sangue de azul escuro que me cobre os sentidos
Em ti vejo os mais latos deuses e os pais da tragédia humana
Noite de calmos encantos avança nos meus olhos de bruma
Cobre a minha insónia e com os teus lábios devora-me o beijo
Noite último reduto do meu ser, corvo negro de bico de cristal, cabelos em dança
Vem, quero ver a tua sombra no meu jardim sentir teu sopro de fauna em meu leito
Noite amante e esconderijo onde me entrego, metamorfose da tua face em azul escuro
Amor tu que trazes a noite a meus olhos, a ti que amo e me cedo... baptizo-te de: Noite

O tornado chega sem anunciar, vento duro rosna pela cidade. O lixo voa em direcção ao céu como preces imundas cheias de cores sombrias e angústia. A casa torna-se ruína, os telhados aleijados pelos objectos que embatem e fustigam tornam-se numa nuvem de vermelho esbatido. O meu quarto fica embriagado pelas projecções do exterior que irrompem pelo tecto. Procuramos abrigo entre destroços que rodopiam sem sentido, senil de conteúdo o descampado de metal retorcido acolhe os sobreviventes. Algo bate pela terra e o chão cai em silêncio pela devastação. Saqueada de folhas a grande arvore termina o seu bailado e a cidade sai dos esconderijos enfeitados pela desordem e caos.
O som profundo e doce da tua distância ecoa nos meus sentidos, toca nas minhas acções mais fúteis com o sentimento de um mensageiro divino. Eu recosto-me na minha cadeira e ponho um cigarro nos lábios para calar o meu monólogo. Reajo á minha reflexão de forma especulativa e vejo o tempo liquefeito numa chuva imaginária que me leva também. Decido afogar-me em histórias que teço, delírios imaginados na inércia. Em frente ao totem que criei de ti: a minha oração levanta voo.